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A ideia de ler

03.06.2009, Miguel Esteves Cardoso, in Público.


Gosto de ler a Isabel Coutinho porque ela entusiasma-se com as novas formas de ler sem perder a paixão pelas antigas. É a única atitude sábia. Os suportes físicos da leitura não se perdem nem se substituem: acumulam-se. Quanto mais se avança na tecnologia, mais se valorizam as maneiras tradicionais de fazer livros. O único perigo é não termos nada para ler - e esse perigo não existe.
Numa sumarenta reportagem no P2 de ontem ela conta que 12 por cento dos compradores de livros americanos leram um ebook no último mês e seis por cento leram-no num telemóvel. A Isabel qualifica "só", mas também se poderia pôr "já".

Já tenho o meu leitor de ebooks, um BeBook, há quase um ano. Ao fim do segundo dia já não passava sem ele. É leve mas leva 4 GB de livros, revistas e textos - o suficiente para 40 mil horas de leitura furiosa. Só é preciso recarregar a pilha de cinco em cinco dias. Nunca aquece nem pisca.
Como o ecrã é preto sobre cinzento lê-se facilmente à luz do sol mais brilhante. E pode-se ler quanto se quiser sem cansar os olhos. Tudo coisas que os portáteis e os telemóveis não conseguem fazer. O BeBook não serve para nada senão para ler.
É como ler fotocópias a preto e branco em meia página A4. Borra as fotografias, mas o tipo de letra pode-se substituir e aumentar. Não é bonito nem fofo nem cheira a tinta. Mas lê-se muito bem. Só é preciso gostar de ler. Quando se fica minimamente absorto esquece-se o que se tem na mão. E é essa a ideia de ler, ou não?